A urgência de se importar

cidades 16 de Novembro, 2022 122

A urgência de se importar

– Ana, a ração do cachorro está acabando. Você me ajuda a lembrar de colocar na lista de compras desta semana?

– Claro, querido. Você percebeu que ele tem rejeitado a comida seca? Quando isso acontece, eu misturo uma colher da ração pastosa e ele come tudo.

– O cuidado que se tem de ter é não exagerar na porção; A veterinária reclamou que ele está ganhando peso e não é bom à medida em que a idade avança.

– Vamos cuidar, sim.

Em tempos tão nebulosos, de conflitos de proporções mundiais, agravados por profundas crises econômicas e humanitárias, era até um privilégio ter como as grandes preocupações do dia saber dosar a ração canina, fazer a lista de mantimentos para repor na dispensa, recolher a roupa do varal antes da chegada da chuva, encontrar um formigueiro no jardim ou não se esquecer da hora de tomar os remédios de uso contínuo. Mas foi uma escolha que fizeram e um pacto que estabeleceram com o propósito de aproveitar o tempo que lhes restava passar juntos, após décadas atribuladas e dedicadas à construção de uma nova realidade. Sem muito sucesso, diga-se de passagem.

Decidiram que sua contribuição, afinal, seria escrever, repassar os conhecimentos compartilhados ao longo dessa jornada e confiar nas escolhas das pessoas, nas apropriações e aplicações deles pelos leitores. Para tanto, portão para dentro, o ar teria de ser respirável. O respeito e o carinho mútuo comporiam a melodia terna e harmoniosa daquele fechamento de ciclo. Tudo porque tinham demorado para se conhecer e outro tanto de tempo se passou até se reconhecerem, perceberem a intensidade e os propósitos daquele encontro tão marcante e enriquecedor. Deviam às suas próprias histórias o merecido benefício da delicadeza. A cadeira de rodas e a progressão do Mal de Alzheimer impunham urgência àquela parceria e sobretaxavam de importância cada fração de tempo em convivência, as palavras escolhidas e trocadas e as imagens de situações que seriam logo emolduradas.

O gosto pela literatura os uniu e o hábito de alternarem períodos de leitura e de discussões de temas, avaliações e impressões sobre os textos, tinha sabor de um jogo prazeroso, sem as disputas vaidosas de uma competição para medir poder ou força, e ritual de momento sagrado. O mundo poderia desabar literalmente lá fora, que eles não desgrudariam um único sentido ativo daquelas orações, cenários e sons. Nem se perderiam de si.

Voltavam quase sempre ao debate sobre as simbologias contidas em “Olhos de Cão Azul” do García Marquez, na busca de um consenso que, por maiores que fossem a cumplicidade e a admiração de um pelo outro, não viria. A beleza daquela reunião provinha justamente do cuidado em preservar a individualidade e os encantos espontâneos de cada parte. Eles se identificavam com aquele conto, com a frustração pelo véu do esquecimento no personagem que representa o sagrado masculino e na persistência emotiva da outra metade, mas discordavam em algumas interpretações pela própria natureza e modelagem com que a vida os diferenciou. Longe disso, hoje, os afastar, nutria seus espíritos da sensação de complementaridade. Cresciam sempre que identificavam e aprendiam com suas diferenças.

Ana, agora Helena, lembrou dos fragmentos daquele sonho recente, enquanto tentava compreender as repentinas acelerações do coração, aquela pontada de dor que aparecia do nada, que aquecia ou comprimia seu peito e que lhe roubava por vezes o ar e a concentração, mesmo quando ela estava displicentemente mergulhada em afazeres banais. Um semblante e um olhar se formavam em sua mente. A sensação era de que, em outro ponto da cidade, Henrique também sentira ou sonhara aqueles acontecimentos; Impressões nítidas e compartilhadas, ainda que nunca ditas e nem sequer compreendidas. Era uma certeza que brotava do fundo daquelas almas. E cada vez mais se revelava; mais incrível no momento seguinte.

Soube que ele atravessava momentos de dificuldades e que andara preocupado com decisões e escolhas feitas, rumos traçados e administrava os percalços inerentes a essa sorte de condições. Em meio a uma dessas vezes em que o peito ardeu e apertou tanto, a ponto de lhe dificultar a respiração, ela sentiu uma tristeza súbita e uma angústia real. Uma vez mais a intuição lhe dizia que aquela aflição não era sua, mas que apenas captara por empatia as energias que cabiam no pensamento dele, dirigido a ela. Helena teve logo a ideia de improvisar uma prece que levasse longe uma mensagem de aconchego e de compreensão, escondida no silêncio imposto pelas distâncias das suas vidas atuais.

Sabia que aquela comunicação carregava também outra garantia: a de que ambos, uma vez conscientes da ligação forte entre eles, nunca mais se sentiriam sozinhos. Cada um possui a chama interior que irradia luz e ilumina os dias do outro… E isso independe de receios e de vontades. Simplesmente existe e delicadamente se define. Sem a urgência que havia antes para que se importassem um com o outro e aproveitassem cada fração de tempo de convivência. Ou ainda sem a necessidade de manifestarem e dizerem tudo o que seria logo esquecido, apagado. Eles instintivamente agora entendiam, sentiam e sabiam como se colocar naquelas situações.

A informação deve ter ficado guardada em algum canto de sua memória espiritual, pois não recordava de ter lido ou ouvido falar a respeito de tal orientação. Ele abriu a tampa da latinha de comida pastosa e misturou o conteúdo de uma colher de chá à ração seca na tentativa de fazer com que a cachorrinha voltasse a aceitar o alimento e não precisasse recorrer aos cuidados hospitalares para ficar bem nutrida e hidratada. O desânimo do animalzinho, habitualmente arteiro, o preocupava. Natural era sua alegria e os rastros de suas artes que descobria pela casa.

– Vamos, Princesinha. Coma tudo! Você precisa ficar forte

Fonte – Blog do Zé Beto